quinta-feira, 12 de abril de 2012

Informe Psicopedagógico


Considerações sobre a elaboração de um informe psicopedagógico[1]
                                                                                                                                                                                                                                                       Simone Carlberg[2]


 

            Para a elaboração de um informe psicopedagógico, é preciso, inicialmente, ter clareza de seu objetivo, uso e função dentro de um processo diagnóstico, seja ele clínico ou institucional.
            A busca desta clareza pode ser iniciada a partir da conceituação da palavra informe e laudo. Laudo, aqui incluída, enquanto palavra e idéia por ser também um termo empregado entre educadores, psicólogos e outros profissionais da área da saúde e educação.
            Vejamos, então: segundo o dicionário Aurélio,
informe significa: informação, documento, fotografia, mapa, relatório ou observação referente ao inimigo ou a uma conjuntura complexa, e que pode contribuir para esclarecer a situação dele ou dela.

laudo significa: parecer do louvado ou árbitro, louvação, louvamento. Peça escrita, fundamentada, na qual os peritos expõem as observações e estudos que fizeram e registram as conclusões da perícia.

            Tanto um termo, como o outro, podem servir para nomear o documento que produzimos ao final de um diagnóstico, no entanto, o termo informe parece ser mais completo, pois se refere a fotografia de um conjuntura complexa que, no caso da Psicopedagogia, é o que se pretende ao final de um diagnóstico: uma fotografia do sujeito pesquisado. Fotografia, no sentido de “um jeito de ver, de observar a realidade”, pois as conclusões ao final de um diagnóstico são o resultado da maneira de olhar a realidade, fundamentado em referenciais teóricos, filosóficos, ideológicos... Dependendo da câmera que se utiliza para fotografar, a foto terá uma qualidade e cabe ao fotógrafo escolher o ângulo para captar a melhor imagem. Parece que o termo informe dá uma idéia melhor de movimento, ao mesmo tempo que registra um tempo, uma forma de desvendar uma realidade.
            Feitas essas considerações, devemos esclarecer que o informe psicopedagógico, além de ser a síntese de um processo diagnóstico, é também, a forma escrita daquilo que denominamos entrevista devolutiva.
            Devolutiva é um termo que só aparece no dicionário enquanto adjetivo e significa:
devolutivo: “que devolve. Que determina devolução; devolutório.
O significado de devolver nos auxilia na compreensão da intenção desta entrevista, ou seja:
devolver: “mandar ou dar de volta. restituir. Dizer em resposta, replicar, retrucar... refletir, retratar... recambiar.
            A intenção é, de fato, em uma sessão de entrevista devolutiva levar o sujeito a refletir sobre uma determinada situação, e se conseguirmos levá-lo a recambiar (dar uma volta inteira com o corpo), quer dizer, olhar para todos os ângulos, estaremos conseguindo cumprir nosso objetivo de provocar uma mudança, ou pelo menos, um movimento de reflexão.
            Para realizarmos, tanto a entrevista devolutiva, quanto produzirmos um informe psicopedagógico, precisamos seguir alguns passos técnicos, ou seja, temos que aprender a comunicar ao outro as conclusões, sem agredir, sem gerar culpas, tentando esclarecer, no decorrer da entrevista, aquilo que, segundo o nosso ponto de vista, percebemos como sintomas, obstáculos e possíveis causas. Além desses aspectos, temos que apontar para um prognóstico e fazer indicações.
            Quanto ao aspecto técnico da produção de um informe, deve-se levar em consideração os seguintes aspectos:
  1. a quem se destina: definir para quem escreveremos é o primeiro passo, pois quando se trata de um informe destinado a um colega, o conteúdo pode ser mais técnico; quando se trata, no entanto, de um documento para ser entregue a um pai, a uma companhia de seguro saúde, a uma escola, uma empresa, temos que ter o cuidado de não expor o sujeito pesquisado usando termos que possam rotulá-lo, até mesmo prejudicá-lo, pois não há como garantir o uso que as pessoas podem fazer do documento que produzimos. Não se pode perder de vista que, neste documento, estaremos descrevendo como o sujeito ESTÁ no momento, segundo o nosso ponto de vista. Um sujeito não É, ele ESTÁ!
  2. Forma de apresentação: já que se trata de um documento por escrito, permanecerá existindo de forma diferente daquilo que é verbalizado na entrevista devolutiva. É um documento assinado por seu autor, um profissional que trata de dificuldades de aprendizagem, portanto, deve haver um compromisso com a qualidade da forma e do conteúdo. Este documento deve ser produzido levando-se em conta, o tipo de papel, a formatação, questões gramaticais, ortográficas, entre outras.
  3. Conteúdo: mais importante do que a forma, pode-se estabelecer um roteiro, com uma introdução, citação dos instrumentos utilizados para a realização da pesquisa, análise dos resultados, prognóstico e indicações. Na introdução caracteriza-se o sujeito pesquisado, por exemplo:
Diagnóstico Psicopedagógico no âmbito institucional:
Conforme contrato estabelecido com esta instituição de Ensino Fundamental, pretendemos por meio deste documento, informar sobre o trabalho desenvolvido com a 3ª série A...
ou,
Diagnóstico Psicopedagógico no âmbito clínico:
João da Silva, nascido em 10.nov.2004, filho do Sr. Fulano e da Srª Fulana, aluno da 1ª série do Ensino Fundamental, na escola Aprendendo, foi submetido a uma avaliação psicopedagógica, solicitada por... em função da seguinte queixa:...
            Citação dos instrumentos utilizados na pesquisa: não há necessidade de detalhar a aplicação dos mesmos, mas é importante citá-los indicando as dimensões pesquisadas, sem perder de vista a quem se destina o documento.
            Análise dos resultados: este é o recheio do texto. É o momento de relatarmos o que concluímos, articulando a queixa, os sintomas, os obstáculos e as possíveis causas. O cuidado tem que ser dobrado, pois uma frase mal construída pode gerar dupla interpretação. É claro que um texto, um artigo, é sempre entendido segundo a perspectiva do leitor, porém, nossa tarefa é produzir um documento que sintetize o que observamos, pensamos, sem contudo, agredirmos o sujeito que descrevemos. O mesmo ocorre na entrevista devolutiva, onde a utilização de analogias podem ser mais úteis do que termos técnicos.
            Em minha experiência clínica, ao atender famílias vinculadas a um convênio com uma indústria de peças de meios de transporte pesado, eu utilizava, para situações de obstáculo epistemofílico, a analogia como combustível utilizado em caminhões. Em geral, as famílias reagiam bem, pois eu utilizava o repertório deles para explicar o que poderia estar ocorrendo com o sujeito pesquisado.
            Prognóstico e indicações: Visca[3] faz uma diferenciação entre um prognóstico científico  uma profecia popular. Para o prognóstico, deve-se levar em consideração três níveis: qual será a evolução futura do sujeito pesquisado no caso de?
1.    não ser submetido a um processo de intervenção;
2.    de ser submetido a um processo ideal de intervenção;
3.    de ser submetido a um processo de intervenção possível.
A diferença entre a profecia e o prognóstico científico, está na fundamentação
utilizada para pensarmos no futuro deste sujeito. Jamais poderemos conduzir um prognóstico fechado, afirmando que o sujeito não conseguirá, ou conseguirá algo, pois o ser humano surpreende com sua reações. Retomo aqui a idéia: o sujeito não É, ESTÁ.
            Juntamente com o prognóstico estão as indicações, que nada mais são, do que a forma que toma o prognóstico. Por exemplo: processo de intervenção ideal: como é, a que se refere, qual a metodologia indicada, qual o tempo de duração (curto, médio, longo prazo), freqüência, entre outros aspectos que julgamos pertinentes, como sugestões, orientações aos pais e/ou escola.
            Está encerrado o informe, é só assinar, envelopar e entregar ao destinatário, preferencialmente em mãos para possibilitar a reflexão conjunta, minimizando a possibilidade de interpretações confusas ou inadequadas.



[1]              Artigo publicado no Boletim Informativo ago/set 2000 ABPp – seção Paraná Sul
[2]              Pedagoga. Psicopedagoga.

[3]              para aprofundamento do tema prognóstico e indicações, sugere-se a leitura do capítulo El pronóstico y las indicaciones. VISCA, Jorge. Clinica Psicopedagogica – Epistemologia Convergente. AG Servicios Graficos. Buenos Aires : 1994. 

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